Tragédia em dois Actos


"The more the universe seems comprehensible, the more it also seems pointless."

Steven Weinberg

Ekphrasis II



“E basta de comédias na minh’alma!”
F. Pessoa

Se cansado amuo o pé no banco torto
É porque me criaste coxo, menino baixo
Inacabado por crescer, engasgado na nossa
Animação de penas dissonantes e flores de papel.

Sou pequeno, menino sim, metáfora enfezada se
Assim o entenderes, mas que culpa tenho eu
Dessa tua insensatez que nos atira às
Alcateias nas aldeias e cidades?

Chega de noites ao relento em celeiros.
Basta de pipocas e cornetins a uivar nas arenas.
Chega de anéis em fogo, palhaços rotos e pombas
Brancas: já não tenho sequência para tamanha alegoria.

Tu bem queres que o meu canto seja canora virtuosidade
Plena de dom, rasgo de honor e suavidade; lamento
Mãe, hoje estou doente de palavras, e a palidez
Do fato velho que me compraste é cama lenta

Onde a escassez de palmas me adormece.
Não me atires para a arena de cara suja, com as
Mãos febris e a boca seca; que mãe és tu? Não me tapes
Os defeitos e os assíndetos com lantejoulas e tapetes caros.

As flores ardem com os gritos dos pavões, mãe. O circo segue,
As gentes choram, mas os tambores defumam o eufemismo
Da nossa ausência. Arde-me a língua mãe, quero dormir,
E hoje ficas tu a traduzir as tragédias em comédias.






Desfaço-me em rios, faço-me em rimas.

Foto: Stepen Arens







“Writing, writers, do not come out of houses without books.”
Doris Lessing



Cresci numa casa onde havia dois livros, de culinária. Um deles, oferecia-se como manual para jovens noivas, e o outro, afirmava pôr a descoberto os tesouros da cozinha tradicional portuguesa. Ambos cheiravam a bolo de maçã com canela. Ambos sofreram com a minha fome de letras, mortalmente feridos na lombada pelas vezes sem conta que os folheei e revirei.
Na minha casa, não havia paredes forradas a livros. Quando passei a ser gente autorizada a ter querer, comecei a pedir livros. Nenhum deles me foi recusado. Os Cinco e os Sete viajavam nas carrinhas da Gulbenkian; na biblioteca da minha aldeia, moravam o Júlio Verne e a Condessa de Ségur; a raposa do Aquilino, essa, respingava na casa do meu tio mineiro.
Não havia colecções inteiras de enciclopédias, nem sequências camonianas ou prateleiras queirosianas. Havia a certeza das quatro estações divididas pelo cheiro das árvores, as noites alumiadas pelo mapa espantado das constelações, o eco, animal à solta nas montanhas vestidas de caruma seca.
Na sala 1138, fala-se de poesia. Disseca-se poesia. John Keats, John Milton, John Ashbery. All Johns, no Joans. O procedimento é simples. Abre-se o poema de cima a baixo, retira-se-lhe a pele, respigam-se as entranhas, (a aorta dá de si), corta-se-lhe o coração em quatro partes iguais. Pesam-se os quartos, uns mais tenros e suculentos, outros menos eficazes.
No fundo da sala, uma traça atira-se violentamente contra a janela, agastada com o cheiro a sangue fresco na sala onde se lê poesia. Onde se disseca poesia. Atira-se com tanta força, que as asas de tule preto começam a acusar rasgões.
A traça quer sair porque a poesia está lá fora, dispersa na plenitude ilusória das nuvens e nas feridas secas das sarjetas. A traça cansa-se de lutar contra a janela. É obrigada a ficar dentro da sala. E fica, quieta no parapeito. Ouve, entende, desentende, olha de novo lá para fora, esquece o que ouviu, lembra, deslembra o que entendeu. Fica quieta, enquanto assimila os restos daquela varonil dissecção, soletrando as rimas e os pés entretanto caídos sobre as flores azuis da carpete.


A Chinesa dos olhos secos





lava as mãos de manhã cedo. Cataratas escancaradas inundam-lhe os pés, as mãos e a cintura. Reza em concha, faz-se balde e entorna a água sobre os olhos. Aliviada, segura por instantes a humidade do sentir.
A chinesa dos olhos secos esqueceu-se de chorar. Na China chora, aqui só cora.
Fecha-se em casa, molha-se ao espelho, e eu, do alto da minha arrogância aquática (freáticos, os nervos e os tendões, à escuta sob a pele), estendo-lhe um olhar atravessado em ponte e esqueço, os dias em que fui, as horas em que sou, uma chinesa de olhos secos a fingir lágrimas ao espelho.
Foto: Flickr

Nocturno I






Não vejo tanta importância
na finitude de um cinzeiro;
amanhã

somos estranhos outra vez e
da nossa imensa curiosidade
sobra apenas um corpo túrgido

demolhado no desengano
que o exagero das mãos meninas
plantou na ponta das nossas línguas

esvaído o encantamento
pela grandeza dos fonemas em falta
amanhã somos

cada um

outra vez

O cinzeiro enfraquece no parapeito da noite.
Faróis e lucernas arranham a transparência das janelas.


Foto: flickr





Brooklyn Bridge (NY 2009)


. . . O Thou steeled Cognizance . . .

Hart Crane, "Atlantis", The Bridge








Nas horas de Novembro permanece
o arrastamento dos dias iguais
dobrados em manhãs tardias
entre as rugas da chuva ascendente.

Mudemo-nos para o alto das Arcádias
há muito enfurecidas pela descrença
e tracemos nas ovelhas e nos prados
a longitude de uma idade incandescente.

O que sabe o pastor poeta
esquecemo-lo nós
sem que algum dia o soubéssemos aprender

e agora, de Novembro até Janeiro,
ardemos sós na ponta da espada
forjada pelo terror das marés em transumância.