é pois vício ou loucura
inclinar a cabeça de mão
dada com a insónia
durante a caça ao indizível
(esfomeada, cão e seta)
o rasgão na manga da camisola
roxa faz-se ponte
para a viagem dos inquietos
em uníssono, batemos à
porta da lua cheia:
por um momento
esquecemos o frio agudo
no cabelo da madrugada
Finisterra (ou a impossibilidade das gaivotas sem sal)

“Uma borboleta sai da sua pupa, chegando ao estado de adulta. Espera-se uma vida efémera, com apenas alguns meses de duração.”*
Dormimos um sono de concha fechada
esquecida de pérolas e línguas frescas.
Se o horizonte do possível está ferido
pelo se repete e mais entope
(de)formemo-nos pois no voo difuso
das borboletas abertas, na fímbria das praias.
Dormimos um sono de concha fechada
esquecida de pérolas e línguas frescas.
Se o horizonte do possível está ferido
pelo se repete e mais entope
(de)formemo-nos pois no voo difuso
das borboletas abertas, na fímbria das praias.
*Diário de Notícias (01/04/2010)
manhã
nem de sóis
ou
ingestão de acenos
apenas um vestido
de serpente
e a cara
assombrada
mimésis de dor
.Dói.
tudo tanto tão longe
inconstância térmica
______febril
ou
ingestão de acenos
apenas um vestido
de serpente
e a cara
assombrada
mimésis de dor
.Dói.
tudo tanto tão longe
inconstância térmica
______febril

O meu sonho era escrever pela tarde fora, livre de peias, com a prontidão
de um xisto lavado. Foi depois de uma doença, ligeira mas perturbadora,
de que voltara ao mundo com uma nova violência
nas ideias. Antes de mais, a decisão de escrever,
de estar a escrever, e a noção de que era necessário
o ser-se separado da escrita. De que era preferível estar só; não apenas
longe das pessoas, mas habitar o ser-só,
explorá-lo pelo lado de dentro, por mais repetitivo ou baço,
com a seriedade e a dedicação de uma criança cujo mundo
se abre todo de dentro de um caixote velho de frigorífico.
de um xisto lavado. Foi depois de uma doença, ligeira mas perturbadora,
de que voltara ao mundo com uma nova violência
nas ideias. Antes de mais, a decisão de escrever,
de estar a escrever, e a noção de que era necessário
o ser-se separado da escrita. De que era preferível estar só; não apenas
longe das pessoas, mas habitar o ser-só,
explorá-lo pelo lado de dentro, por mais repetitivo ou baço,
com a seriedade e a dedicação de uma criança cujo mundo
se abre todo de dentro de um caixote velho de frigorífico.
Martin Earl, “Obscurity” (Trad. MIR)
Gostava de te mostrar
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrada de sol
— vês? — aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas todas de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava — mas uivam os lobos —
— tu assustas-te
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrada de sol
— vês? — aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas todas de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava — mas uivam os lobos —
— tu assustas-te

Dias há em que o corpo me atrapalha a lucidez. Sinto-o como uma estiagem, uma presença molecular desajustada, mais diurna que nocturna.
Fosse antes água, vento ou nevoeiro. Uma fluidez antiga capaz de acariciar limites e de se infiltrar na boca das coisas. Ser delas, absorver-lhes o sol e os rios de dentro. Cíclica e funda, total, em silêncio.
Não haveria dias de afastamento entre mim e esta esteira de carne, nem a pretensa aceitação dos seus traços e ermos. Apenas uma linha recta quebrada em círculo, rendida ao caos e à agilidade das terras selvagens.
Uma aragem fervendo vulcões.
Fosse antes água, vento ou nevoeiro. Uma fluidez antiga capaz de acariciar limites e de se infiltrar na boca das coisas. Ser delas, absorver-lhes o sol e os rios de dentro. Cíclica e funda, total, em silêncio.
Não haveria dias de afastamento entre mim e esta esteira de carne, nem a pretensa aceitação dos seus traços e ermos. Apenas uma linha recta quebrada em círculo, rendida ao caos e à agilidade das terras selvagens.
Uma aragem fervendo vulcões.
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