dentro sente-se a fuligem
num sonoro ricochete
que quebra
a mão felina, a que
fermenta as tempestades
numa pluma vulcânica
tomando súbita o céu da
boca (sonolenta)

abre a porta
aos murmúrios do asfalto
ao que faz falta falta
mar falta dor falta pele
gente corpo falta —


Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.


Clarice Lispector, “Preciosidade”, Laços de Família (Lisboa: Relógio d’Água) 76.

é pois vício ou loucura
inclinar a cabeça de mão
dada com a insónia
durante a caça ao indizível

(esfomeada, cão e seta)

o rasgão na manga da camisola
roxa faz-se ponte
para a viagem dos inquietos

em uníssono, batemos à
porta da lua cheia:

por um momento
esquecemos o frio agudo
no cabelo da madrugada


São estas andorinhas à pressa
uma primavera de frio gentil:
não entendo a longitude do teu ser
por ser freático e matinal;
acolho-te no desconhecido
vale entalado entre as mãos
— de frente como a um espelho —
e afogo-me na promessa
das cerejeiras por arder.

calada oiço a conversa das nuvens
afunilada em rimas e dispersão

liquidamente, os pássaros descem
aos ninhos claros na garganta dos
troncos

uma e outra espera
(pela luz verde, às vezes o café)

sou de novo a dança espessa
das árvores loucas em excesso
ardente

Finisterra (ou a impossibilidade das gaivotas sem sal)


“Uma borboleta sai da sua pupa, chegando ao estado de adulta. Espera-se uma vida efémera, com apenas alguns meses de duração.”*

Dormimos um sono de concha fechada
esquecida de pérolas e línguas frescas.
Se o horizonte do possível está ferido
pelo se repete e mais entope
(de)formemo-nos pois no voo difuso
das borboletas abertas, na fímbria das praias.

*Diário de Notícias (01/04/2010)

manhã

nem de sóis
ou
ingestão de acenos

apenas um vestido
de serpente
e a cara
assombrada

mimésis de dor
.Dói.
tudo tanto tão longe

inconstância térmica
______febril


O meu sonho era escrever pela tarde fora, livre de peias, com a prontidão
de um xisto lavado. Foi depois de uma doença, ligeira mas perturbadora,
de que voltara ao mundo com uma nova violência
nas ideias. Antes de mais, a decisão de escrever,
de estar a escrever, e a noção de que era necessário
o ser-se separado da escrita. De que era preferível estar só; não apenas
longe das pessoas, mas habitar o ser-só,
explorá-lo pelo lado de dentro, por mais repetitivo ou baço,
com a seriedade e a dedicação de uma criança cujo mundo
se abre todo de dentro de um caixote velho de frigorífico.

Martin Earl, “Obscurity” (Trad. MIR)
Gostava de te mostrar
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrada de sol
— vês? — aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas todas de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava — mas uivam os lobos —
— tu assustas-te