Sopa Fria

Hoje é uma daquelas tardes de sopa fria, em que dou por mim parada à janela, com um gato bravo molhado ao colo. A vida dos outros chega-me às postas, escorrendo melosa pelos cortinados: promessas frescas de crianças e pássaros, uma intensa novidade que mais ainda me aborrece o gelo.
E por aqui fico parada, espantada a devorar nacos da vida dos outros, sem cuidado algum em escolher partes ou cuspir ossos. Que me engasgue, pois então, que tussa roxa de acidente, a cara a afogar-se no remoinho do quotidiano...
Trago a barriga cheia de café morno, não vi a senhora, não vi o papa, não vi ninguém para além da vizinha a estender roupa, arranhando o prédio como se tocasse um violino.
Os pés são dois e desiguais, e às mãos não sei o que lhes fazer. Ter este tempo todo para mim, inteiro e raivoso, e bastar-me no excesso da mesa e do sofá. Temos de ir variando, entre tragédias e outras comédias. Por isso hoje sou o lambril da casa, suja e farta dos dias todos, iguais, brevemente levitada pela pressa de quem vai passando.
Também eu faço por ir passando, mas os pés encolhem-se e tropeçam, embriagados sobre umas andas de palhaço. Continuo a ter seis anos, disfarçados pelos saltos altos da minha mãe. O espelho partiu-se e sobrou apenas a metade do meio, pelo que não vejo a cara nem os pés, nem os sete anos de azar que me foram prometidos.

Volto já. Vou só ali aquecer a sopa.
dentro sente-se a fuligem
num sonoro ricochete
que quebra
a mão felina, a que
fermenta as tempestades
numa pluma vulcânica
tomando súbita o céu da
boca (sonolenta)

abre a porta
aos murmúrios do asfalto
ao que faz falta falta
mar falta dor falta pele
gente corpo falta —


Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.


Clarice Lispector, “Preciosidade”, Laços de Família (Lisboa: Relógio d’Água) 76.

é pois vício ou loucura
inclinar a cabeça de mão
dada com a insónia
durante a caça ao indizível

(esfomeada, cão e seta)

o rasgão na manga da camisola
roxa faz-se ponte
para a viagem dos inquietos

em uníssono, batemos à
porta da lua cheia:

por um momento
esquecemos o frio agudo
no cabelo da madrugada


São estas andorinhas à pressa
uma primavera de frio gentil:
não entendo a longitude do teu ser
por ser freático e matinal;
acolho-te no desconhecido
vale entalado entre as mãos
— de frente como a um espelho —
e afogo-me na promessa
das cerejeiras por arder.

calada oiço a conversa das nuvens
afunilada em rimas e dispersão

liquidamente, os pássaros descem
aos ninhos claros na garganta dos
troncos

uma e outra espera
(pela luz verde, às vezes o café)

sou de novo a dança espessa
das árvores loucas em excesso
ardente

Finisterra (ou a impossibilidade das gaivotas sem sal)


“Uma borboleta sai da sua pupa, chegando ao estado de adulta. Espera-se uma vida efémera, com apenas alguns meses de duração.”*

Dormimos um sono de concha fechada
esquecida de pérolas e línguas frescas.
Se o horizonte do possível está ferido
pelo se repete e mais entope
(de)formemo-nos pois no voo difuso
das borboletas abertas, na fímbria das praias.

*Diário de Notícias (01/04/2010)

manhã

nem de sóis
ou
ingestão de acenos

apenas um vestido
de serpente
e a cara
assombrada

mimésis de dor
.Dói.
tudo tanto tão longe

inconstância térmica
______febril