já não sangro pelas entrelinhas
dos postais outrora escritos
na proa irisada do navio
em viagem. guardo
do desembarque naquela ilha
o manual de introdução ao canto
dos pássaros que me deste,
as franjas douradas, o baú
o império que te dei
caliban destemido trono
já não há tempestade que nos salve
desta agrura estreme
dos dias limpos e iguais
eu rezo ao teu deus em apneia
tu falas a minha língua de metais
mas à mesa só sabemos recortar
a toalha em barquinhos de papel
que navegamos para longe
na nossa ingénua violência
Receita para fim de tarde

há-de haver neste vinagre
a medida certa de outra aurora
um fontanário rubro a brotar entre
três chávenas quebradas
numa cozinha ausente
e no telhado, uma laje inclinada
como o caderno da escola
que o trabalho de casa fechou
tape a boca e espirre, menina
respire
faça do calor uma ferramenta
aguçada para cozer bolos e
fermentar crianças
para esquecer
o vinagre que lhe foge
da boca e lhe tinge
o vestido de azul-cinzel, azul
como o quadrado da entrada
(esse torto, aí ao fundo)
o que lhe devora a mão direita
quando adormece e se lembra
das intempéries, todas elas
roídas inteiras pelo chão da casa
respire
faça calor com as suas mãos
e retire
do vinagre a aurora e a cozinha
fervente
respire
do chão o calor, da mão um machado
febril rachando portas no ar
seco deste tempo baço
e febril
respire
To know my blind spot

The room inside me has disappeared. At night, when all is quiet, I no longer hear the pictures shifting on the walls when I walk fast. Only the pump in the basement. I wonder whether the space has folded in on itself like a tautology, or been colonized. You think the wine has washed it out, and it's true that the mirror tilted at a reckless angle. I still have the floor plan with measurements, but now that nothing corresponds to it I can only take it as part of the emptiness I try to cover up with writing. To know my blind spot. I have always wanted to dilate my landscape for the piano and the long labor of losing the self. Though I am too nearsighted for clouds. If I had lived a different image.
Waldrop 1987, 71
É um fino início de primavera.
atravesso a corte o país transverso
através de pontes e raposas breves
enferrujadas pelas lixeiras
a céu aberto, tombando chuva:
18º C: um mar espesso de nevoeiro
onde adivinho cobras cegas, folhas
negras, pontas soltas de oliveiras
a arder a arder num sopro atroz:
pinheiros bravos: a resina
lava espessa flamejante:
13ºC: três estações – a primavera,
o verão, a primavera – passam a salto
as fronteiras dos olhos frescos
que trago nesta manhã silícica
e atravesso
a corte a longitude desta nesga
num carro cheio, de cebolas e rosas brancas
o cheiro de ambas lembrança afónica
por chorar, o cheiro de ambas bilhete
gasto a dobrar – em quatro – e a guardar:
um verso: inverso de outra estação que
supero – talvez em vão – nas cornucópias
sincopadas das raposas, dos pinheiros,
das cobras e das cebolas que vão ardendo
(e ardem ardem) e que vou chorando
por saber que nada disto cabe aqui
(não pode, não cabe) pois este aqui
quer-se liso e retumbante
como um beijo de campanário
e não rugoso ou afrontado
pelas montanhas que atravesso
de modo exangue
em corte transverso: 18º C:
é um fino início de primavera.
guardo as cebolas e as rosas brancas
no bolso cavo do inverno mudo.
através de pontes e raposas breves
enferrujadas pelas lixeiras
a céu aberto, tombando chuva:
18º C: um mar espesso de nevoeiro
onde adivinho cobras cegas, folhas
negras, pontas soltas de oliveiras
a arder a arder num sopro atroz:
pinheiros bravos: a resina
lava espessa flamejante:
13ºC: três estações – a primavera,
o verão, a primavera – passam a salto
as fronteiras dos olhos frescos
que trago nesta manhã silícica
e atravesso
a corte a longitude desta nesga
num carro cheio, de cebolas e rosas brancas
o cheiro de ambas lembrança afónica
por chorar, o cheiro de ambas bilhete
gasto a dobrar – em quatro – e a guardar:
um verso: inverso de outra estação que
supero – talvez em vão – nas cornucópias
sincopadas das raposas, dos pinheiros,
das cobras e das cebolas que vão ardendo
(e ardem ardem) e que vou chorando
por saber que nada disto cabe aqui
(não pode, não cabe) pois este aqui
quer-se liso e retumbante
como um beijo de campanário
e não rugoso ou afrontado
pelas montanhas que atravesso
de modo exangue
em corte transverso: 18º C:
é um fino início de primavera.
guardo as cebolas e as rosas brancas
no bolso cavo do inverno mudo.
Pé de carmim

faltam-me os começos daqui pois
perco-me. nos fins dali
perco-me. começo:
carícia no cabelo, o teu
menina vaidosa ao espelho
descalço, o teu pé de carmim
frio faminto de mim
de dizer-te dizendo-me
mas perco-me. recomeço:
digo –se, não digo –me
nem digo –te dizendo –me
apenas –se. cf. op. cit. cito: etc.
rodapé menina de pé. de carmim
frio faminto de mim
se és carne ou suspiro de
enxame?
ao espelho
atiro-te espadas
em golpe de mármore
mas tu:
tu és granada rente de areia
a salivar praias de outras ilhas
(outros mares)
talvez ainda mais distantes
Sopa Fria
Hoje é uma daquelas tardes de sopa fria, em que dou por mim parada à janela, com um gato bravo molhado ao colo. A vida dos outros chega-me às postas, escorrendo melosa pelos cortinados: promessas frescas de crianças e pássaros, uma intensa novidade que mais ainda me aborrece o gelo.
E por aqui fico parada, espantada a devorar nacos da vida dos outros, sem cuidado algum em escolher partes ou cuspir ossos. Que me engasgue, pois então, que tussa roxa de acidente, a cara a afogar-se no remoinho do quotidiano...
Trago a barriga cheia de café morno, não vi a senhora, não vi o papa, não vi ninguém para além da vizinha a estender roupa, arranhando o prédio como se tocasse um violino.
Os pés são dois e desiguais, e às mãos não sei o que lhes fazer. Ter este tempo todo para mim, inteiro e raivoso, e bastar-me no excesso da mesa e do sofá. Temos de ir variando, entre tragédias e outras comédias. Por isso hoje sou o lambril da casa, suja e farta dos dias todos, iguais, brevemente levitada pela pressa de quem vai passando.
Também eu faço por ir passando, mas os pés encolhem-se e tropeçam, embriagados sobre umas andas de palhaço. Continuo a ter seis anos, disfarçados pelos saltos altos da minha mãe. O espelho partiu-se e sobrou apenas a metade do meio, pelo que não vejo a cara nem os pés, nem os sete anos de azar que me foram prometidos.
Volto já. Vou só ali aquecer a sopa.
Trago a barriga cheia de café morno, não vi a senhora, não vi o papa, não vi ninguém para além da vizinha a estender roupa, arranhando o prédio como se tocasse um violino.
Os pés são dois e desiguais, e às mãos não sei o que lhes fazer. Ter este tempo todo para mim, inteiro e raivoso, e bastar-me no excesso da mesa e do sofá. Temos de ir variando, entre tragédias e outras comédias. Por isso hoje sou o lambril da casa, suja e farta dos dias todos, iguais, brevemente levitada pela pressa de quem vai passando.
Também eu faço por ir passando, mas os pés encolhem-se e tropeçam, embriagados sobre umas andas de palhaço. Continuo a ter seis anos, disfarçados pelos saltos altos da minha mãe. O espelho partiu-se e sobrou apenas a metade do meio, pelo que não vejo a cara nem os pés, nem os sete anos de azar que me foram prometidos.
Volto já. Vou só ali aquecer a sopa.
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