Lá fora caem trombetas de água irisada pelo vento;
talvez o fogo venha a seguir, depois o fumo e o enxofre;
não sei ainda, mas a terra pareceu tremer
entretanto, talvez de frio ou solidão.

Lá fora o mundo avança e acaba
e tu aqui sentada, à cerejeira desta mesa
que sob um sol murcho vai murchando
murchando —
os olhos um arado sobre a noite.

Crias por isso uma fórmula de sentido:
subtrais à altura das ondas a velocidade do vento,
multiplicas as intempéries pela nidificação interrompida,
mas sobra-te sempre a viuvez das casas em colapso
gemendo água pelos alvéolos das paredes.

Esperas por isso que o mar devolva
a mensagem vidrada que lhe ofereceste
naquele dia luzidio de tranças pretas.

Talvez venhas a ser Eva sem Adão
se a espuma do mar te lembrar
da nudez inocente caída sobre as águas,
se regressares à ausência dos nomes
sussurrados antes pela carícia dos elementos:
ruach elohim

Mental Note #13




. . . If I can stand up to angels and men, I'll never get swallowed in the darkness again . . .


(quando as palavras não chegam, fica a voz...)

To the Lighthouse


Costa Atlântica (2009/2010)

Nocturno II

Por maceradas equimoses
subimos a pulso a aridez da pele
(um do outro às vezes a minha)
há-de haver atrás dos ombros
um fontanário curvado em
porta que eu possa abrir
e entrar
navegar-te por dentro
e alisar as tuas águas
antárcticas ------ felinas
(esquecemos as âncoras
hoje
talvez este ano?



"A infância é um país mágico donde somos todos expatriados pela percepção da morte, ou da crueldade."

Maria Velho da Costa, Myra (Lisboa: Assírio & Alvim, 2008) 134.
Foto: R. Rogers

What will suffice *

Quase sempre me falta o tempo para escrever menos. Digo, reter o necessário da invasão babélica que sucede cada vez que se abrem as comportas da semântica, brava e enraivecida galgando as margens.
As gentes de hoje não se agradam do excesso. Urge por isso despir a palavra num isolamento desadjectivado, recuperar-lhe a nudez asséptica e minimal.
Custa-me no entanto apurar o vocábulo dessa forma, limar assim os rochedos que se vão formando atrás da língua.
Falta-me o tempo para escrever menos, mais certo, arrumado, contido. Porventura encontrar o que (me? nos?) é suficiente.
Falta-me o tempo, e por vezes a coragem.
Porque para isto é preciso ter coragem, é necessário ter mão rija para se conseguir viver no susto constante das palavras a saírem-nos de debaixo dos pés e a encadearem-se à nossa frente, tenebrosas e fluidas.

*
Chega-se o fim das horas.
É tempo de me recuperar
ao largo do mar febril
e deixar assomar os dedos
à janela da magnética inquietude
fazendo-me de desfazer-me re-
fazendo-me
na maresia amniótica
cevada de tinta a descrer a crónica
breve desta paragem pantomímica.

Alçapão (sem porta)

São tantas as vezes que a desarrumação do sótão me cai em cima (como caía o céu sobre a cabeça dos gauleses), que eventualmente me renderei à evidência caótica das lembranças. Avessa à sisífica catalogação de gentes e de cheiros, passarei a ser velha louca desterrada entre livros rotos e jornais adiados, o mijo dos ratos a adoecer-me o ar de leptospirose e eu doente, sentada numa poltrona rarefeita de molas e de hortênsias, calada a desfiar um rosário de cacos.
Vivo no ontem, sim, pois do hoje só recebo uma pouca ilusão de avanço, em tudo insuficiente à minha expansão miocárdica.

Sarcophagus for the mistranslators



Sarcophagus for the slave of writing crying help in all

languages for wild sound for the
twins of frozen speech