Lá fora caem trombetas de água irisada pelo vento;
talvez o fogo venha a seguir, depois o fumo e o enxofre;
não sei ainda, mas a terra pareceu tremer
entretanto, talvez de frio ou solidão.
Lá fora o mundo avança e acaba
e tu aqui sentada, à cerejeira desta mesa
que sob um sol murcho vai murchando
murchando —
os olhos um arado sobre a noite.
Crias por isso uma fórmula de sentido:
subtrais à altura das ondas a velocidade do vento,
multiplicas as intempéries pela nidificação interrompida,
mas sobra-te sempre a viuvez das casas em colapso
gemendo água pelos alvéolos das paredes.
Esperas por isso que o mar devolva
a mensagem vidrada que lhe ofereceste
naquele dia luzidio de tranças pretas.
Talvez venhas a ser Eva sem Adão
se a espuma do mar te lembrar
da nudez inocente caída sobre as águas,
se regressares à ausência dos nomes
sussurrados antes pela carícia dos elementos:
ruach elohim
Mental Note #13
. . . If I can stand up to angels and men, I'll never get swallowed in the darkness again . . .
(quando as palavras não chegam, fica a voz...)
Nocturno II
Por maceradas equimoses
subimos a pulso a aridez da pele
(um do outro às vezes a minha)
há-de haver atrás dos ombros
um fontanário curvado em
porta que eu possa abrir
e entrar
navegar-te por dentro
e alisar as tuas águas
antárcticas ------ felinas
(esquecemos as âncoras
hoje
talvez este ano?
subimos a pulso a aridez da pele
(um do outro às vezes a minha)
há-de haver atrás dos ombros
um fontanário curvado em
porta que eu possa abrir
e entrar
navegar-te por dentro
e alisar as tuas águas
antárcticas ------ felinas
(esquecemos as âncoras
hoje
talvez este ano?
What will suffice *
Quase sempre me falta o tempo para escrever menos. Digo, reter o necessário da invasão babélica que sucede cada vez que se abrem as comportas da semântica, brava e enraivecida galgando as margens.
As gentes de hoje não se agradam do excesso. Urge por isso despir a palavra num isolamento desadjectivado, recuperar-lhe a nudez asséptica e minimal.
Custa-me no entanto apurar o vocábulo dessa forma, limar assim os rochedos que se vão formando atrás da língua.
Falta-me o tempo para escrever menos, mais certo, arrumado, contido. Porventura encontrar o que (me? nos?) é suficiente.
Falta-me o tempo, e por vezes a coragem.
Porque para isto é preciso ter coragem, é necessário ter mão rija para se conseguir viver no susto constante das palavras a saírem-nos de debaixo dos pés e a encadearem-se à nossa frente, tenebrosas e fluidas.
As gentes de hoje não se agradam do excesso. Urge por isso despir a palavra num isolamento desadjectivado, recuperar-lhe a nudez asséptica e minimal.
Custa-me no entanto apurar o vocábulo dessa forma, limar assim os rochedos que se vão formando atrás da língua.
Falta-me o tempo para escrever menos, mais certo, arrumado, contido. Porventura encontrar o que (me? nos?) é suficiente.
Falta-me o tempo, e por vezes a coragem.
Porque para isto é preciso ter coragem, é necessário ter mão rija para se conseguir viver no susto constante das palavras a saírem-nos de debaixo dos pés e a encadearem-se à nossa frente, tenebrosas e fluidas.
*
Chega-se o fim das horas.
É tempo de me recuperar
ao largo do mar febril
e deixar assomar os dedos
à janela da magnética inquietude
fazendo-me de desfazer-me re-
fazendo-me
na maresia amniótica
cevada de tinta a descrer a crónica
breve desta paragem pantomímica.
É tempo de me recuperar
ao largo do mar febril
e deixar assomar os dedos
à janela da magnética inquietude
fazendo-me de desfazer-me re-
fazendo-me
na maresia amniótica
cevada de tinta a descrer a crónica
breve desta paragem pantomímica.
Alçapão (sem porta)
São tantas as vezes que a desarrumação do sótão me cai em cima (como caía o céu sobre a cabeça dos gauleses), que eventualmente me renderei à evidência caótica das lembranças. Avessa à sisífica catalogação de gentes e de cheiros, passarei a ser velha louca desterrada entre livros rotos e jornais adiados, o mijo dos ratos a adoecer-me o ar de leptospirose e eu doente, sentada numa poltrona rarefeita de molas e de hortênsias, calada a desfiar um rosário de cacos.
Vivo no ontem, sim, pois do hoje só recebo uma pouca ilusão de avanço, em tudo insuficiente à minha expansão miocárdica.
Vivo no ontem, sim, pois do hoje só recebo uma pouca ilusão de avanço, em tudo insuficiente à minha expansão miocárdica.
Sarcophagus for the mistranslators

Sarcophagus for the slave of writing crying help in all
languages for wild sound for the twins of frozen speech
David Shapiro, "Sarcophagus for the Silence of God"
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