Painful Questions...

"Is it lack of imagination that makes us come
to imagined places, not just stay at home?
Or could Pascal have been not entirely right
about just sitting quietly in one's room?

Continent, city, country, society:
the choice is never wide and never free.
And here, or there . . . No. Should we have stayed at home,
wherever that may be?"


Elizabeth Bishop, "Questions of Travel"



(Por mais que desejemos um outro mundo, falta-nos sempre aquele que nunca chegámos a ter...)



. . . I go where I love and where I am loved . . .*




(A margem vai deslocar-se até outras paragens. Vai, mas volta...)


*H.D., "The Flowering of the Rod", Collected Poems: 1912 - 1944 (New York: New Directions Books, 1986) 578.
Foto: Toni Frissell




Fantomatique, comme les

arbres, je reviens aux paysages.



Élise Turcotte
, Piano Mélancolique
Photo: Jan Lakey



Meu gosto é voar,
É ser vento e cotovia,
Livrar do chão as mãos aladas,
E ser das árvores a copa errante.
Raízes, sobram-me aquelas
Que se soltam dos meus dedos
E se espraiam em negros deltas
Que vão fluindo,
Que vão fugindo,
Que vão voando.

A Casa

Vi-a definhar lentamente enquanto alimentava aquela casa todos os dias. Inenarráveis, eram os seus braços e as suas pernas, sisíficos membros que carregavam pratos e travessas montanha acima, montanha abaixo, todos os dias, todas as noites.
Todos os dias, fazia comida que se comia, e que de novo se fazia e se comia, em loiça que se sujava e se lavava e sujava, sujava. Havia também a roupa que se sujava e se lavava e ficava manchada pela vida daqueles que eram os seus, uma vida tão distante da sua como os aviões que cruzavam teias de fumo branco sobre a abóbada azul estendida ao longo da rua.
As suas mãos eram o coração daquela casa, o cerne onde convergiam todas as fissuras das paredes, veias que se enchiam de sangue sempre que ela cortava carne, fervia água, partia um copo ou bordava pássaros.
Via-a minguar enquanto os filhos cresciam e o marido arrefecia, enquanto revirava as suas entranhas para que a casa continuasse a respirar, arrumando móveis e retratos a sépia nos recantos do seu próprio ventre.
Foi diminuindo um pouco mais todos os dias, todas as noites, até que um dia se escoou completamente por entre os ladrilhos da cozinha. Deixou para trás um marido frio, dois filhos em quarto crescente, e uma casa desventrada.

Foto: R. Zorno

The Mercy Seat


... And anyway I told the truth
But I'm afraid I told a lie.

(Gosto tanto deste Nick Cave... Com camisa estridente e tudo...)



She was the single artificer of the world
In which she sang. And when she sang, the sea,
Whatever self it had, became the self
That was her song, for she was the maker. Then we,
As we beheld her striding there alone,
Knew that there never was a world for her
Except the one she sang and, singing, made.





Que gran silencio
Todo en suspenso
Que vértigo de no verte
Retumbo
Como una campana
Abro la ventana

Y entras tú…

Lhasa, "Abro La Ventana", The Living Road (2003)
Photo: R. Zorno



Havia pedras, brancas e pretas, que saltitavam como teclas de um piano debaixo dos seus pés. As flores do seu vestido ondulavam ao sabor daquele som, esquecidas do vento, rendidas à música. Os dois braços no ar (finos ramos a espreitar por entre um conto de fadas) prolongavam-se até à batuta da ponta dos dedos, delineando uma varinha de condão cujo vértice inundava o jardim de gargalhadas e sinetas.
Reclinava a cabeça e cantava muito alto, o fio da voz a cair-lhe da boca cheia de algodão doce, entrelaçando-se suavemente com a luz baixa do pôr-do-sol. O cabelo desenhava-lhe sucessivas colcheias no marfim da pequena testa, marcando o ritmo solto daquela melodia entrecortada por saltos e risadas.
Num breve instante, todo o Verão se concentrou ali, no seu vestido florido em dança encantada, na sua doce voz de menina-borboleta, naquele mágico concerto sem orquestra. Senti de novo o jardim mais verde, e todas as flores recuperaram o seu cheiro.

Lips too warm for lies...



I always say, I always said
If I were grown and free
I’d have a gown of reddest red
As fine as you could see,

To wear out walking, sleek and slow,
Upon a Summer day,
And there’d be one to see me so,
And flip the world away.

And he would be a galant one,
With stars behind his eyes,
And hair like metal in the sun,
And lips too warm for lies.

I always saw us, gay and good,
High honoured in the town.
Now I am grown to womanhood...
I have the silly gown.


Dorothy Parker,"The Red Dress",The Collected Poetry of Dorothy Parker (New York: The Modern Library, 1936)95.

Photo: John Rawlings




Beneath the stains of time
The feelings disappear...

(O que nem sempre é doloroso...)

A gata da vizinha...


... às vezes, também é minha...

Se todo o ser


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus, em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma beberá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Se todo o ser", Obra Poética I (Editorial Caminho, 1998) 59.

Coisas Poéticas


Poema
onde pudesse pôr
à margem
uma fotografia a ilustrar

De que serve falar
sobre esta árvore, a sua sugestão
de corpo nu:

-------cabeça decepada, mas seios tão perfeitos
-------(menos um), e braços que mais longos,
-------lanças medievais, o resto a sugerir
-------outros lugares. Só pés ausentes, raízes
-------invisíveis, mas possível na água era essa
-------imagem

Poema
onde o que à margem
fosse o centro
e as palavras podiam
deixar-se

cair


Ana Luísa Amaral, “Coisas Poéticas”, Poesia Reunida 1990 – 2005 (Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005) 68 – 69.

Opium, János Szász (2007)


And Something’s odd – within –
That person that I was –
And this One – do not feel the same –
Could it be Madness – this?


Emily Dickinson, The Complete Poems of Emily Dickinson, Thomas H. Johnson, ed. (Boston: Little, Brown and Company, 1961) 195.

Live and let... write?


A great poet, a really great poet, is the most unpoetical of all creatures. But inferior poets are absolutely fascinating. The worse their rhymes are, the more picturesque they look. The mere fact of having published a book of second-rate sonnets makes a man quite irresistible. He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry that they dare not realise.


Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray (London: Penguin Books, 1994) 68.





Nunca se louva a solidão com sossego.


Novas Cartas Portuguesas, 288.



Frida Kahlo, “El Círculo” (1951)



“Physical pain does not simply resist language but actively destroys it, bringing about an immediate reversion to a state anterior to language, to the sounds and cries a human being makes before language is learned.”

Elaine Scarry, The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World (New York: Oxford University Press, 1985) 4.


Se este quadro, com apenas 15 cm de diâmetro, tivesse um milímetro a mais que fosse, tornar-se-ia insuportável, tal é a violência da (pré)explosão das formas e a intensidade da conjugação das cores. Da F. Kahlo, é o meu quadro mais preferido.



Hoje sou-te cintilante aperto:
a minha perna, tapete de trono oriental;
a boca, porta arqueada de palácio ameado;
a trança, bainha torcida de espada
ardente e lacrimejante, andante, andante.

Mas depressa secam as fontes na Babilónia
e, farto deste meu violento miosótis,
evaporas a sede dos vulcões da tua pele
num outro lago turvo afundado em silêncio,
remando a nado o teu corpo feito mastro.

Reasons not to be a Cowboy

I said, “The problem is I don’t drink enough water and I don’t eat right. That pork last night was full of fat, for example. And riding a horse, you never get the cardiovascular exercise you need. I’ve got to think about my health.” Well, you’d a thought I’da put on a dress and high heels the way they laughed and carried on. I said: “I quit. I’m a cowboy no longer. It’s a rotten lonelylife and I’m done with it.” And I jumped on Old Dan, who luckily was right there, and I rode away.

Garrison Keillor, “Lonesome Shorty”, The Book of Guys (London, Boston: Faber and Faber, 1994) 26.


Photo: John Dominis


AFOOT and light-hearted, I take to the open road,
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me, leading wherever I
choose.

Walt Whitman, “Song of the Open Road”
Photo: Joel Sartore


(Saudades de saltar à corda...)




Trago a boca baixa e ressequida,
esquecida dentro de um papel dobrado que,
de lado, se rasga num assobio
a querer içar, sem leveza,
a face parda da madrugada
cortada por caminhos, casas e frio
frio
frio
...

“E a beleza, pois, a beleza. Mas a beleza não é aceitar, é ter suspenso.”


Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (Lisboa: Dom Quixote, 1998) 288.

(A foto da linda senhora foi emprestada daqui)


...
I still only travel by foot and by foot, it's a slow climb,

But I'm good at being uncomfortable, so

I can't stop changing all the time
...

Fiona Apple,
“Extraordinary Machine”

Photo: Brooklyn Bridge Climb 1926 (unknown author)


Llevo el vestido de la embriaguez y de la fuerza soy
la portadora de un solo y único mar soy lo
innumerable de la espuma
Cada fibra del tejido es tu enredo.
Duerme, acógete ente estos hilos
circula entre mi trama secreta que te sueña
te borda y te dibuja . . .

Hanni Ossott, “Notas Sobre Un Vestido de Amor”, El Reino Donde La Noche Se Abre

Photo: Erwin Blumenfeld